25 de dez de 2007

Mensagem de um guerreiro sem arma que luta pela vida do mundo

por Benki Piyãko*

A Associação Apiwtxa e eu, Benki Piyãko, representante do Centro Yorenka Ãtame, queremos agradecer a todos os parceiros que contribuíram direta e indiretamente para a criação do Centro Yorenka Ãtame, que foi inaugurado no dia 7 de julho de 2007.













Depois de uma grande luta da Comunidade Ashaninka do Rio Amônia pela demarcação da nossa terra, pela preservação da nossa cultura, pela implantação da recuperação do nosso território, e pela implantação do manejo sustentável local da fauna e da flora na Comunidade Apiwtxa, temos hoje como resultado um sistema de SAFS com mais de 150 espécies de madeiras de lei e de frutas, e nossos açudes com tracajás e peixes.



Além disso, na nossa luta para a contenção de invasão de madeireiros e caçadores na nossa fronteira, mobilizamos e articulamos um sério envolvimento com IBAMA, Exército, Policia Federal, Governo, ONU, entre outros.

E esta luta ainda continua. Lutamos em defesa da soberania do nosso povo, pelos Direitos dos Seres Humanos e pela recuperação de toda biodiversidade da natureza.



Todo esse trabalho foi reconhecido em 1995, quando recebi o Prêmio de Direitos Humanos. E neste ano, 2007, a Associação Apiwtxa recebeu o Prêmio Chico Mendes na categoria Associação Comunitária, que premia comunidades amazônicas que se destacam na qualidade da gestão ambiental.

E para que possamos transmitir o conhecimento adquirido às pessoas e comunidades locais do entorno, criamos o Centro Yorenka Ãtame – Saberes da Floresta.













O Centro Yorenka Ãtame tem como objetivos:

- desenvolver novas técnicas de sustentabilidade;
- manejar os recursos naturais de forma mais técnica e sábia;
- desenvolver o reflorestamento local e do entorno, com modelo pode ser replicado em outros locais da Amazônia Panamericana;
- oferecer capacitação técnica para jovens índios e não-índios, para o cuidado e monitoramento da natureza;
- realizar intercâmbios com a ciência tradicional e a ciência acadêmica;
difundir esse conhecimento nacional e internacionalmente.



















Com isso pretendemos possibilitar a conservação e preservação da natureza, cuidando da nossa Floresta Amazônica e fortalecendo um novo sistema de intercâmbio com o Mundo, chamando à responsabilidade todos os seres humanos habitantes do nosso planeta Terra.

Assim, venho agradecer as pessoas que estão ligadas, direta ou indiretamente, com o nosso projeto e nosso trabalho, que se amplia a nível nacional e internacional.




Com a rede de amigos e também com a Rede Povos da Floresta estamos fortalecendo uma comunicação com o Mundo, tirando do isolamento e trazendo os povos da floresta para a presença de nosso país.

Essa união está nos possibilitando crescer juntos para recuperar a nossa natureza, que já foi e continua sendo tão degradada pelo ser humano.












As atividades no Centro Yorenka Ãtame começaram muito bem, com o desenvolvimento de projetos e trabalhos para todos nós.

Estamos realizando uma pesquisa com 12 jovens moradores do Município, sobre a implantação de SAFS. Fomos veículo na formação de agentes de saúde indígena com a formação de 20 pessoas.



Iniciamos o processo de inclusão digital que será realizada em todo território brasileiro – o primeiro ponto de instalação da antena foi o Centro Yorenka Ãtame, no dia 19 de novembro, para nós um motivo de muita alegria.

Demos continuidade com a formação dos líderes indígenas e com a implantação de mais 5 pontos no Alto Juruá.



Além disso, estamos desenvolvendo o trabalho de reflorestamento do entorno, com o projeto “Neutralize” que vai contribuir com a natureza diminuindo o gás carbônico da atmosfera e colaborando com o desenvolvimento local das comunidades, através da conscientização sobre a importância da troca do gado para o reflorestamento e os benefícios desta ação para o mundo.

E os trabalhos prosseguem...



E é com motivo de alegria que nós desejamos a todos um Natal iluminado, abençoado e agraciado, com toda a força da natureza que rege este Planeta.

E um Ano Novo de muitas conquistas floridas para todos nós. Que possamos ver este Planeta se recuperando e nos proporcionando uma vida sadia, sábia e próspera.
















* Benki Piyãko, Coordenador do Centro Yorenka Ãtame

30 de nov de 2007

Yorenka Ãtame é equipada com internet

MMA inaugura primeiro ponto de acesso à internet em escola na Amazônia
por Grace Perpetuo*

A escola de educação ambiental Ayorenka Antami, no Acre, abrigou no último dia 24 de novembro o primeiro acesso à internet da agenda de 11 novos pontos - entre os 150 previstos para todo o País - de conexão da Rede de Monitoramento, Vigilância e Educação Ambiental de Comunidades Tradicionais e Indígenas e de Áreas Protegidas. Trata-se de uma malha digital que levará sinais de satélite, internet, educação ambiental e um cardápio de serviços públicos online a populações tradicionais e indígenas que vivem em Unidades de Conservação de 13 estados brasileiros. A escola fica na sede do município Marechal Thaumathurgo.

A iniciativa é fruto de um acordo entre os ministérios do Meio Ambiente e das Comunicações e a Rede Povos da Floresta - grupo que remonta à Aliança dos Povos da Floresta, de Chico Mendes. O acordo de cooperação técnica em que se baseia o projeto de inclusão digital foi firmado em março deste ano, no âmbito do programa Governo Eletrônico Federal de Atendimento ao Cidadão (Gesac), entre os dois ministérios e a Associação de Cultura e Meio Ambiente (RJ), representante da Rede Povos da Floresta. O principal objetivo do projeto de inclusão digital é fortalecer o papel das comunidades tradicionais e dos povos indígenas na gestão ambiental de áreas protegidas e seus entornos, valendo-se de monitoramento, vigilância e educação ambiental - sempre de forma articulada com as políticas culturais e educativas e as agendas de promoção da sustentabilidade dessas comunidades. O apoio do MMA ao projeto se dá por meio do Departamento de Educação Ambiental (DEA).

Os próximos cinco pontos da malha - também conhecida como Rede Povos da Floresta - serão inaugurados nas aldeias indígenas Arara e Ashaninka e em três localidades ao longo do Rio Tejo, na Reserva Extrativista Alto Juruá: Foz do Bagé, Restauração e Sete Estrelas. "E, entre janeiro e fevereiro do ano que vem serão implantados mais três pontos na região - desta vez em Belfort, Boavista e Foz do Breu", afirma o técnico Francisco Costa, que acompanha a gestão da cooperação do MMA com o projeto

* Grace Perpétuo, MMA - ASCOM, 30/11/2007

28 de nov de 2007

Instalado Ponto da Rede Povos da Floresta no Centro Yoreka Ãtame

por Rede Povos da Floresta*

Foto Rede Povos da Floresta














Para o contentamento de todos os envolvidos na Rede Povos da Floresta, foi instalado o primeiro ponto no Centro Yoreka Ãtame – Saberes da Floresta - Centro de Intercâmbio de Conhecimento.

Durante este mês serão instalados ainda os pontos da Vila Restauçã - Rio Tejo, Comunidade Kontanawa do Sete Estrelas - Rio Tejo, Foz do Bagé - Rio Bagé e da Aldeia Apiwtxa - Rio Amônia.

A implantação conta com os seguintes apoios: Ministério do Meio Ambiente, Ministério das Comunicações, Ibama, Associação de Cultura e Meio Ambiente, Prefeitura de Marechal Thaumaturgo, Centro Yoreka Antâme, Governo do Estado do Acre e das comunidades envolvidas.

Nos meses de janeiro e fevereiro de 2008 serão instalados os pontos nas comunidades de Foz do Breu, Kaxinawa do Breu, Arara do Bagé, Boa Vista e Belford.

* Rede Povos da Floresta, 28/11/2007

1 de out de 2007

A história do Yorenka Ãtame

por Benki Piyãko*

Através da Associação Apiwtxa viemos informar os parceiros e amigos da Rede a proposta criada por nós, líderes do povo Ashaninka, como vemos o mundo através de nossas experiências e, no mesmo instante, colocando nosso propósito de trabalho para complementar e difundir nossas experiências com outras regiões do planeta.

A grande degradação da biodiversidade responsável pelas mudança climática que vem ocorrendo na Terra nos causa preocupação.

Somos responsáveis pela minimização desses problemas que vem ocorrendo na Terra e nós indígenas estamos dando a nossa contribuição em meio a essa situação.

A longa história, sobre a preservação da natureza, contada pelos mais velhos sobre as invasões ocorridas em nossa terra, causava grande impacto pra nossa comunidade Ashaninka, da Terra Indígena Kampa do Rio Amônia.

Nossa terra fica situada na faixa de fronteira Brasil/Peru, sendo a principal terra Ashaninka no Brasil, reunindo 500 pessoas residindo na Aldeia Apiwtxa, fazendo limite com: o Peru, com a Reserva Extrativista (RESEX) do Alto Juruá, um assentamento do INCRA e o Parque Nacional da Serra do Divisor (PNSD).

Essa história fez com que as lideranças representativas dessa comunidade: Benki, Moisés, Isaac, Francisco e outras lideranças mais velhas, entre homens e mulheres da comunidade, se articulassem a um modelo de manejo para a reconstrução da natureza que foi e continua sendo devastada em nossa região e do entorno, criando assim um modelo de sustentabilidade social e ambiental.

Apesar do longo contato com a sociedade ocidental, o nosso povo preservou até os dias de hoje seus conhecimentos tradicionais, contados pelos mais velhos. Esses conhecimentos apresentam uma cultura milenar, sábia e rica que é repassada de geração a geração. Ao longo dos últimos quinze anos, nosso povo se tornou um exemplo de sustentabilidade social e ambiental para a região amazônica. As ações desenvolvidas por nós também serviram de fonte de inspiração para o governo do estado do Acre que, desde 1998, se denomina de “Governo da Floresta” e fez do desenvolvimento sustentável seu modelo estratégico de trabalho com a população indígena e não-indígena do Estado do Acre.

O nosso território, assim como toda região, passou e continua passando por grandes invasões predatórias, ocasionadas por madeireiros peruanos e caçadores de animais silvestres, que vêm de diversos lugares do entorno.

Diante desse constante fato, o nosso povo se organizou internamente para defesa do nosso território, no sentido de fortalecer a identidade cultural e étnica do nosso povo, com objetivo de mostrar uma nova forma de equilíbrio sustentável em relação aos nossos recursos naturais, ampliando tais conhecimentos para outras etnias e servindo de modelo a nível nacional e internacional.

Desde 1989, nós, Asheninka, criamos o primeiro Sistema de Recuperação de nosso território, utilizando as práticas de manejo sustentável.

Em 1992, ano da demarcação de nossa terra, criamos um projeto de pesquisa onde analisamos a riqueza de nosso território com o objetivo de criar alternativas de sustentabilidade econômica e ambiental visando a autonomia do povo Ashaninka e da região.

No âmbito do Centro de Pesquisa Indígena, com a centralização de um pequeno espaço isolado, começamos efetivamente o reflorestamento de nossa região, na qual foram plantadas mais de 80 mil mudas com uma diversidade de 146 espécies de árvores frutíferas e madeiras de leis, onde se pode em um ano tirar mais de 50 toneladas de alimentos para a comunidade.

Dentro desse trabalho de Sistemas Agroflorestais foi consorciada uma diversidade de espécies tais como apicultura, manejo de peixes em rios e lagos, além do manejo da fauna e flora.

Nossa luta em defesa do nosso território trouxe hoje uma nova reflexão para ampliar o conhecimento desse equilíbrio sustentável, mobilizando seminários e encontros nacionais e internacionais com outros parentes indígenas para defender o nosso território de onde tiramos nosso alimento e toda nossa sustentabilidade.

A necessidade de difundir este conhecimento acumulado pela comunidade Apiwtxa para a população da região, que inclui uma Reserva Extrativista, um Parque Nacional e outras terras indígenas, levou à criação de um projeto idealizado por Benki Piyanko, a partir de sua experiência como Secretário do Meio Ambiente do Município de Marechal Taumaturgo.

Esse projeto foi elaborado pelas lideranças da comunidade e chamado Centro de Formação Yorenka Ãtame – Saber da Floresta.

Com o apoio financeiro de alguns parceiros a comunidade Apiwtxa adquiriu uma área de 86 hectares em frente à sede do município de Marechal Thaumaturgo, onde está montada a estrutura física do Centro de Formação.

O projeto “Centro de Formação Yorenka Ãtame (Saber da Floresta)” foi inaugurado em julho de 2007. Ele é a continuação, fortalecimento e ampliação da longa luta do nosso povo para a proteção do meio ambiente e o desenvolvimento sustentável da região do Alto Juruá, uma das regiões mais ricas em biodiversidade do planeta.

Fruto da rica experiência do nosso povo com a sustentabilidade, o Yorenka Ãtame (Saber da Floresta) funciona como um centro de formação, educação, intercâmbio e difusão de práticas de manejo sustentável dos recursos naturais da região do Alto Juruá.

Estamos apresentando um projeto do espaço Yorenka Ãtame, como uma oportunidade para a população do rio Juruá poder ver os modelos de uso dos recursos naturais de forma mais prática e técnica.

Esse projeto também é para fortalecer os conhecimentos tradicionais, para que a população tenha uma nova visão sobre a floresta. Esta visão é saber como usar os recursos naturais sem agredir o meio ambiente e a natureza, de forma que esse saber possa ser reconhecido como ciência de conhecimentos práticos, recuperando terras, florestas e animais, cuidando da biodiversidade em geral.

Para isso, vamos disseminar novos conhecimentos na área da sustentabilidade e formar jovens e adultos para trabalhar uma nova forma de manejo da floresta, manejo dos recursos naturais.

Vamos fazer manejo de fauna, de quelônio para repovoação, manejo de rios e lagos com espécies de peixes que vivem na região, manejo de abelhas nativas. manejo de sementes e também recuperação da floresta com plantios de frutíferas, restaurando áreas degradadas, manejo de espécies de madeira, sobretudo protegendo as águas de nossos rios e igarapés e diversos outros trabalhos, assim como estudar as leis ambientais.

Com isso visamos o nosso futuro e o futuro de novas gerações.


O Centro Yorenka Ãtame também está aberto para pessoas de outras instituições para seminários, intercâmbios, oficinas com projetos de educação, cultura, meio ambiente.

*Benki Piyãko, Vice-Presidente da Associação Apiwtxa e Coordenador do Centro Yorenka Ãtame – Saber da Floresta


4 de ago de 2007

Inaugurada Escola Saberes da Floresta Yorenka Ãtame

por Rede Povos da Floresta*

Foto Rede Povos da Floresta













Com previsão para durar três anos, o Projeto Escola Yorenka Ãtame (Saber da Floresta), da Associação Ashaninka do Rio Amônia, pretende dar continuidade à preservação de seus conhecimentos tradicionais e fortalecer e ampliar sua luta para a proteção do meio ambiente e o desenvolvimento sustentável da região do Alto-Juruá, uma das regiões com maior riqueza em biodiversidade do planeta.

De julho de 2007 a julho de 2010, o município de Marechal Thaumaturgo sediará o centro de formação, educação e difusão de práticas de manejo sustentável dos recursos naturais da região do Alto-Juruá.

Um dos principais povos indígenas da bacia amazônica, os Ashaninka têm uma população de mais de 60 mil e que ocupa um território que se estende dos Andes centrais do Peru à bacia do Alto-Juruá.

Nômades tempos atrás, hoje os Ashaninka possuem uma área demarcada e isso fez com que eles começassem a desenvolver técnicas sustentáveis como forma de preservar a região. Entre outras coisas, os Ashaninka desenvolvem um trabalho de repovoamento de rios e matas e reflorestamento de árvores.

Segunto Luiz Paulo Montenegro, um dos mantenedores do projeto, hoje os Ashaninka têm uma noção exata da sua cultura e querem mantê-la ao mesmo tempo em que utilizam o que apreenderam em contato com o não índio.

- Eles têm a percepção de que não adianta manter a reserva intacta se os arredores estiverem degradados. O Rio Amônia nasce no Peru e é um rio essencial para a sobrevivência de qualquer comunidade na Amazônia. A idéia da escola é fundir o conhecimento que eles têm da floresta, das plantas, das sementes, das ervas, com o conhecimento ambiental, de ecologia, biologia, zoologia, e com isso ministrar cursos de formação técnica, de manejo sustentável, - explica Luiz Paulo.

Os cursos, que terão duração aproximada de 20 a 40 dias, ensinarão a fazer coleta e tratamento de sementes, criar e preservar peixes e quelônios, manusear os ovos das tartarugas e protegê-los de predadores, fazer açudes, desenvolver a apicultura, entre outras coisas.

Com uma área de 770 mil hectares e uma população de 8.292 habitantes, o município de Marechal Thaumaturgo é o único no Brasil a ter aproximadamente 95% de seu território constituído por terras protegidas e amparadas por lei. A escola Yorenka Ãtame pretende apoiar o território a conservar todas essas terras protegidas e a riqueza de sua biodiversidade.

Estiveram presentes na inauguração: Arnóbio Marques, governador do Acre; Carlos Alberto, secretário de articulação do governo; Itamar de Sá, prefeito de Marechal Thaumaturgo; Perpétua de Sá, deputada estadual; Luiz Paulo Saade Montenegro e Bruno Mariani, apoiadores do Centro Yorenka Ãtame; Francisco Pinhanta, Assessor especial dos povos indigenas; Luiz Valdenir, coordenador da OPIRJ; José Pimenta, professor de antropologia UnB; Mariana Pantoja, professora da UNICAMP; Vera Olinda, pedagoga da Comissão Pró-Índio do Acre; Cloude Correia, técnico do IIEB além de diversas lideranças indígenas e extrativistas da região.

* Rede Povos da Floresta, 04/08/2007

15 de jul de 2007

A escola Yorenka Ãtame e os saberes da floresta

por Vera Olinda Sena*














O povo Ashaninka do rio Amônia inaugurou no dia 7 de julho passado, em frente à sede do município de Marechal Thaumaturgo, a Escola Yorenka Ãtame, um espaço educativo, cultural e ambiental destinado a promover a troca de saberes, o diálogo intercultural e a formação de jovens e adultos da floresta numa nova perspectiva de aprendizagem. Na inauguração, mais de uma centena de pessoas das terras indígenas circunvizinhas, da Reserva Extrativista do Alto Juruá, do Parque Nacional da Serra do Divisor e das cidades de Marechal Thaumaturgo, Cruzeiro do Sul, Tarauacá, Rio Branco, Brasília, Rio de Janeiro e São Paulo, além de representantes de países como Irlanda, Canadá e Austrália, estiveram presentes, vendo, ouvindo e falando sobre essa grande novidade da floresta, confluindo a força das diferenças em uma convivência interativa.

A Yorenka Ãtame é um projeto antigo dos Ashaninka. Nasceu desde as experiências que estão dando certo na comunidade APIWTXA do rio Amônia para a gestão dos recursos naturais de sua terra indígena. Essas experiências valorizam fortemente as culturas, as línguas indígenas e o jeito de viver de cada povo da floresta para proteger o meio ambiente e criar alternativas econômicas e socioculturais sustentáveis. O que certamente lhes obriga a refletir sobre essa complexidade e enfrentar os conflitos, as tensões, os problemas e suas soluções. E isto as lideranças Ashaninka fazem muito bem! Por isso, resolveram estender os trabalhos que vêm realizando na sua comunidade para toda a população do vale do Alto Juruá acreano.

Nas palavras de Francisco Pinhanta, assessor especial de assuntos indígenas do governo do estado, a “Yorenka Ãtame significa muito para os Ashaninka. Nem dá para a gente expressar em uma situação desta a sua tradução correta, porque o sentido é muito profundo e precisa de muito tempo para entender o seu significado. Yorenka é saber, é ciência, é conhecimento. Isso é guiado pelos espíritos da floresta, os mistérios e os ensinamentos que aprendemos conversando, aconselhando, respeitando os mais velhos e a natureza e, principalmente, fazendo trabalhos práticos”.

Os dias que antecederam a inauguração foram de muitas rodas de conversações. Um grupo de Ashaninka formado por antigas lideranças, como o seu Antonio Piyãko e o Cláudio, bem como pelos mais jovens, como Benki Piyãko, Isaac Totto, Francisco, Otxe, Komãyari, Wingo, Moisés, Wewito e ainda por mim e os antropólogos Cloude Correia, Mariana Pantoja e Hamilton, que ficamos muito satisfeitos e honrados pelo convite para estarmos ali participando daquelas conversas importantes.

Organizamos uma chuva de idéias sobre o sentido daquele espaço, pensando juntos como ele deverá, de fato, se constituir. Como deverá funcionar? Quem deverá ocupá-lo? E o que deverá produzir? Tomara ser fácil para o leitor imaginar a riqueza destas questões e a solidez da interculturalidade: um grupo de gente debatendo, em duas línguas, as potencialidades daquele espaço criado, que se articula com os enormes problemas e possibilidades de soluções para renovar o ser e o fazer naquela importante região acreana.

Na intensa semana da inauguração, foi muito bacana ver e ouvir o Benki, principal articulador da Yorenka Ãtame, coordenando uma equipe de vinte e seis jovens não-indígenas da sede do município de Thaumaturgo, que já estão envolvidos nas atividades práticas de manejo. Em agosto próximo, todos eles estarão participando de uma oficina de coleta de sementes, ministradas também pelo Benki. Conversamos com alguns desses jovens, que demonstraram enorme gratidão pelo que estavam aprendendo, especialmente pelo novo olhar de valorização da floresta, de seus povos indígenas e populações tradicionais. “Tudo como sendo parte de um todo”, como disse a Naiana, uma dessas jovens de Thaumaturgo.

Também foi valioso conversar com alguns moradores da Reserva Extrativista do Alto Juruá e perceber que eles ainda estão motivados a refazer seus projetos. Em vários momentos, colocaram que acham oportuno criar situações para que alguns de seus moradores, freqüentando a Yorenka Ãtame, possam reavivar a importância da ocupação da Reserva a partir de uma lógica mais coletiva, superando a lógica da propriedade privada. Muitos falaram da necessidade de se debater sobre o valor dos conhecimentos tradicionais, de retomar a luta pelos direitos frente à crise política e de lideranças que, hoje, parece tomar conta da maioria de seus moradores. Não foram poucas as falas públicas recuperando a luta pela criação da Reserva, avaliando o momento atual e a importância de pensar o futuro, articulando educação e participação com a proteção da floresta e de suas águas.

As conversas foram regadas à caiçuma, feita, com primor, pela Goya e a Derléia Ashaninka. Também tomamos o kamarãpe, ou cipó da ayahuasca, ouvindo cantorias indígenas dos Ashaninka, Arara, Kaxinawá, Kontanawa e Jaminawa-Arara, que nos trouxeram muita inspiração e ensinamentos. Dessas conversas, gostaríamos mesmo de mostrar todo o texto bruto, para que o sentimento, o falar com o coração, transparecesse nesta escritura. Mas isso não é possível, porque não temos todo esse espaço nesta coluna e pela ausência da veia poética no sangue. Por isso, daqui para frente, apresentamos apenas fragmentos de discursos, que só podem ser amorosos, de tão eloqüentes, sinceros e comprometidos. São discursos das lideranças Ashaninka e do governador Binho Marques. Apreciem sem moderação!

Francisco Pinhanta

“A Yorenka Ãtame não veio para competir nem tomar lugar de nenhuma outra escola. Está sendo hoje criada para inaugurar um projeto de sustentabilidade para esta região. Este projeto tem por base a experiência que a APIWTXA desenvolve em gestão ambiental na nossa terra indígena. Na aldeia fazemos safs, manejos de recursos naturais, artes e ofícios, apicultura, piscicultura, repovoamento de quelônios, palmeiras e palheiras, proteção da fronteira, artesanato etc. Isto quer dizer que não é a lógica de ser mais uma escola, mas um espaço que trata os saberes da floresta como exemplos de confiança e resistência.

A urgência do povo Ashaninka é envolver mais pessoas para refletir sobre a importância de proteger a biodiversidade e a sociodiversidade de nossa rica região do Alto Juruá, de refletir sobre o prejuízo que muitas vezes os conhecimentos de fora trazem para as populações locais. Temos que dialogar com outros conhecimentos, mas antes, temos que valorizar os conhecimentos tradicionais dos diversos povos de nossa região.

Estamos fortalecendo, na prática, uma aliança que é nossa. Este espaço vai funcionar respeitando e promovendo a participação e a democracia. Nos momentos de discussão, os parentes desta região, as lideranças de seringueiros, todos, enfim, vão ser chamados para discutir algumas questões importantes que passam pela gestão dos recursos naturais desta imensa região de grande biodiversidade e sociodiversidade”.

Lideranças Ashaninka na inauguração da Escola Saberes da Floresta







Moisés Piyãko

“Este espaço é para promover encontros, juntar conhecimentos, fazer troca de saberes, fazer troca de experiências e reunir pessoas com suas culturas e essa diversidade toda. Para pensarmos juntos um projeto de desenvolvimento sustentável para nossa região. Trazer para dentro deste espaço as formas tradicionais de ensino, com conversas, conselhos, decisões que temos que tomar juntos. Trazer os mais velhos para cá para apoiar e ensinar jovens e adultos de todas as nossas comunidades”.
Isaac Totto

“A Escola Yorenka Ãtame vai promover um espaço de debate para a ação. Quem passar por aqui vai se preparar para a ação. Aqui é um espaço para práticas sustentáveis. Prática e reflexão vão andar juntas.

O espírito desta escola é a gente compartilhar nossos conhecimentos com os nossos vizinhos índios e brancos. E o que eles têm a nos oferecer e que possam também compartilhar com nosso povo. Este é o verdadeiro espírito da coisa. Se a gente mantiver este espírito, este espaço vai fluir. Vamos atingir nosso objetivo de viver em harmonia com a natureza. Este é nosso grande alvo. Viver bem! Nosso alvo é a vida do ser humano e a vida do planeta. E como vamos garantir isso? Podemos criar gado, criar peixe, criar galinha, podemos plantar arroz, podemos criar e plantar qualquer tipo de coisa que venha nos beneficiar, mas fazendo isso, qual é a agressão que estamos causando à natureza? Este é o desafio deste espaço. Como vamos nos organizar para que se tenha tudo isso, mas que o rico seja a permanência da diversidade biológica e nossa rica diversidade sociocultural”.

Governador Binho Marques

“Estamos aqui com muita alegria inaugurando um ambiente de formação, um ambiente que é importante para este novo momento que estamos vivendo. E que depois desta trajetória, que nós compartilhamos a vida toda, vamos dar um passo fundamental para que o desenvolvimento sustentável, que a gente sempre sonhou, possa efetivamente acontecer.

Quero dizer que, apesar do seu Antonio Piyãko está triste com as invasões patrocinadas por madeireiros peruanos e com os problemas ambientais do entorno, eu quero dizer ao seu Antonio que estamos juntos com ele. E juntos com os amigos que apoiaram a realização e a concretização deste empreendimento. Quero agradecer a todos vocês que vieram participar deste evento e dizer que este momento é importante para a gente renovar nossas esperanças e colocar desafios mais significativos para nossas vidas.

Meu sentimento é de alegria com a vitória e a resistência do povo Ashaninka. É um momento de alegria, mas não de euforia. Seria de euforia se estivéssemos com esta iniciativa espalhada por todo o Acre e por toda a Amazônia, mas essa nossa alegria tem que ser grande o suficiente para que possa contagiar todos os povos desta região do Alto Juruá e fortalecer ainda mais a nossa união. Há vinte anos atrás a gente cantava o hino do seringueiro, festejando a criação das reservas extrativistas, a consolidação das terras indígenas, como se fosse nosso ato último para que entrássemos na redenção, na alegria eterna. Hoje em dia, nós sabemos que ainda temos muita luta pela frente. Hoje, comemoramos uma vitória que foi construir este espaço com a parceria de muita gente de dentro e de fora do estado. E que só foi possível construí-lo também graças a um povo altivo, criativo, guerreiro e feliz, como os nossos parentes Ashaninka. Então, este momento está repleto de significados e será mais significativo se for um momento de passagem de uma história para outra nova história.

Temos uma trajetória grande pela frente, diferente da que tivemos para trás em que foi sacrificado Chico Mendes, Hivair Higino, Wilson Pinheiro e tantos outros.

Tenho certeza que este espaço vai ser um ambiente que vai formar a substancia da luta que nos teremos pela frente. A nossa luta agora depende de muito conhecimento e formação.

Quero dizer que estou de corpo e alma nessa nova luta. Juntos, precisamos encontrar o nosso caminho e levantar a nossa bandeira. Não basta dizer só que nossa bandeira é contra o desmatamento, temos que encontrar uma alternativa de vida e sobrevivência para nossos povos, para todos os índios, colonos, seringueiros e ribeiros para que preservem as nossas florestas. Mas esta não é uma trajetória fácil. Este é um momento de esperança no futuro, que talvez só a sabedoria dos povos indígenas, como a dos Ashaninka, Kaxinawá, Arara, Jaminawa-Arara, Poyanawa, Nukini, Katukina, Yawanawá e outros, possam nos ajudar a encontrar um novo e promissor caminho.

Com isso, quero dizer que, como representante do Governo da Floresta, o César Messias como vice-governador e os demais secretários aqui presentes, que estamos aqui para aprender também e assim construir um novo pacto para uma vida melhor e mais feliz para todos. Então meus amigos, vamos renovar nossas esperanças e fazer com que este ambiente possa ser produtivo e se espalhar por todo o Acre, chegar ao Amazonas, desaguar no mar e construir um novo modelo de civilização”.

Francisco Pinhanta, vice-governador César Messias, Governador Binho Marques, seu Antôno Piãko e Moisés Ashaninka, na inauguração da Yorenka Ãtame





Luiz Paulo Montenegro

“Hoje os Ashaninka têm uma noção exata da sua cultura e querem mantê-la ao mesmo tempo em que utilizam o que aprenderam em contato com os não índios. Eles têm a percepção de que não adianta manter a sua terra preservada, se os arredores estiverem degradados. O rio Amônia nasce no Peru e é um rio essencial para a sobrevivência de qualquer comunidade na Amazônia. A idéia da escola é fundir o conhecimento que eles têm da floresta, das plantas, das sementes, das ervas medicinais, com o conhecimento ambiental, da ecologia, biologia, zoologia, e com isso ministrar cursos de formação técnica, de manejo sustentável”, declarou Luiz Paulo, um dos mantenedores da Escola Yorenka Ãtame, no blog da APIWTXA. Leia mais sobre esse assunto e as invasões de madeireiros peruanos na terra Ashaninka, no Parque Nacional da Serra do Divisor e, agora mais recentemente, na Resex Alto Juruá no seguinte endereço: http://apiwtxa.blogspot.com/.

Benki Piyãko

“Os Ashaninka sabem que o valor dos conhecimentos tradicionais também é muito forte entre os outros povos indígenas e não indígenas de nossa grande e rica floresta. Por isso, vamos valorizar e compartilhar estes conhecimentos com os seringueiros, os ribeirinhos e os jovens de Marechal Thaumaturgo.

Nossa preocupação é dar instrumentos para a juventude se preparar para os desafios ambientais e socais do futuro. Como a juventude vai enfrentar os problemas que estão aí e que estão ficando cada vez mais graves? Qual a reflexão que fazemos sobre a região do Alto Juruá, o Acre, o Brasil e o mundo? Nossa juventude está preparada? Está refletindo sobre os nossos problemas?”

Finalizando o papo

O papo, na verdade, começa aqui com o funcionamento dessa nova escola da floresta. A Yorenka Ãtame vai funcionar inicialmente com oficinas de manejo de recursos naturais: de apicultura; de coleta de sementes para reflorestamento de áreas degradadas e oficinas de artes e ofícios. Em todas essas oficinas vão ocorrer estudos sobre sociedade e meio ambiente. A área de comunicação e informática também vai ser transversal a todas elas. Esperamos de todo coração, que a Yorenka Ãtame seja uma árvore muita frondosa, como uma grande samaúma, moradia de muitos espíritos de sabedoria, e que, sob sua copa, floresçam outras grandes árvores dessa nossa imensa floresta.

* Vera Olinda Sena, Educadora e representante da Comissão Pró-Índio do Acre. Página 20 - Papo de Índio, 15/07/2007

3 de jul de 2007

Yorenka Ãtame

por Altino Machado*

Índios ashaninka criam "Escola Saberes da Floresta" para ensinarem extrativistas e ribeirinhos do Vale do Juruá a estabelecerem uma relação com a floresta sem danos ambientais















Além de lutar diariamente para conter a invasão e a destruição dos recursos naturais de suas terras por madeireiros peruanos, na fronteira do Brasil com o Peru, no Vale do Juruá, a Associação Ashaninka do Rio Amônia (Apiwtxa) ainda consegue se mobilizar para inaugurar no sábado a Yorenka Ãtame – Escola Saberes da Floresta, uma iniciativa que poderá se tornar num marco na defesa das florestas da região.

A Yorenka Ãtame pode ser um exemplo de como restaurar o meio ambiente e ter uma facilidade muito mais prática de ensinar os ribeirinhos. Apoiada pela Rede de Amigos da Escola, Governo do Estado do Acre e prefeitura de Marechal Thaumaturgo, a escola é um desafio do povo ashaninka, que vai ensinar a população branca da região a estabelecer uma relação com a floresta sem danos ambientais.

"A Escola é um desafio grande para o nosso povo, para enfrentar até mesmo os conhecimentos acadêmicos", afirma Benke Pinhanta, ashaninka criador e coordenador da escola. Segundo Benke, a escola veio para mostrar um novo modelo que a comunidade ashaninka desenvolveu voltado à segurança e sustentabilidade alimentar.

"As coisas ficam muito entregues na mão do governo, prefeitura, dos políticos, e muito pouco nas mãos dos representantes do cooperativismo", assinala Benke.

A escola vai receber até 80 pessoas de uma vez, 40 pessoas em cada curso, e conta até com os recuros da Internet. Benke avalia que hoje há muita discussão sobre como fazer com relação aos problemas ambientais.

"Tem muitas pessoas quase gritando que está se acabando a floresta, o ar, as águas, estão mudando o clima. Mas isso está acontecendo porque a gente não está construindo para amenizar o que está acontecendo. A parte científica deve se voltar para o lado prático também", aconselha.
Benke considera o manejo a coisa mais séria. "O erro é que estão estudando o que vem de fora: a experiência de manejo florestal que aconteceu na Europa - França, Alemanha, Inglaterra e Estados Unidos, a parte acadêmica sobre os planos de manejo dos recursos de uma forma econômica. Para a gente, não dá para copiar aquele modelo de fora".

Ele disse que na Europa existe pouca floresta nativa, muito já foi destruído e o que resta na maioria é monocultura de pinheiro e outras espécies. "Temos que ter o nosso inventário porque muitas coisas boas já foram construídas com essa diversidade de madeira, a ciência e a consciência que o povo tem aqui sobre esse manejo", acrescenta.

Como a Universidade da Floresta está se revelando fora de foco, como um campus avançado da Universidade Federal do Acre com cinco cursos em Cruzeiro do Sul, a escola Yorenka Ãtame quer por em prática a transmissão dos saberes da floresta dos índios para os extrativistas e ribeirinhos.

*Altino Machado, 03/07/07
Direto do Blog do Altino

8 de jun de 2007

Escola Yorenka Ãtame, dos Ashaninkas, dá curso para monitores da Reserva Extrativista do Alto Juruá

Benke aconselha Universidade da Floresta a ter um olhar mais profundo sobre a sobrevivência do povo

por Flamínio Araripe*

O primeiro curso da escola Yorenka Ãtame (Saberes da Floresta) dos Ashaninkas, construída no rio Amônia na margem oposta ao município de Marechal Thaumaturgo, reuniu índios e brancos da Reserva Extrativista do Alto Juruá (Reaj).

O encontro teve o objetivo de treinar os monitores da Reaj, disse Benke, Ashaninka coordenador e criador da escola.

"Essa escola pode ser um braço muito importante para a Universidade da Floresta, no futuro", afirma Benke. Também participaram do encontro os antropólogos Mauro Almeida e Manuela Carneiro da Cunha, da Unicamp.

"Foi uma experiência muito importante. Não tem muita coisa a ficar discutindo. Temos que fazer mesmo. As coisas já estão prontas", disse o coordenador da escola.

Benke avalia que hoje há muita discussão sobre como vamos fazer com relação aos problemas ambientais. "Tem muitas pessoas quase gritando que está se acabando a floresta, o ar, as águas, estão mudando o clima. Mas isso está acontecendo porque a gente não está construindo para amenizar o que está acontecendo. A parte científica deve se voltar para o lado prático também", aconselha.

O líder Ashaninka observa que muitas pessoas jovens estão aprendendo a parte acadêmica. "Mas quem está avançado deve colocar essa coisa na prática, tanto ensinar como colocar na prática. A escola Yorenka Ãtameestá pra disso", assinala.

"Se a Universidade da Floresta quer desenvolver algo ligado à Amazônia, ao Acre e ao povo da região, temos que ter um olhar mais profundo sobre a sobrevivência do povo", disse Benke.

Após participar de um encontro na Reunião Anual da SBPC sobre manejos florestais, ele criticou o enfoque econômico dado ao tema, à visão de apenar tirar madeira.

Como manejar, segundo Benke, é a coisa mais séria. "Estão estudando o que vem de fora: a experiência de manejo florestal que aconteceu na Europa - França, Alemanha, Inglaterra - e Estados Unidos, a parte acadêmica sobre os planos de manejo dos recursos de uma forma econômica. Para a gente, não dá para copiar aquele modelo de fora".

Na Europa tem pouca floresta nativa, muito já foi destruído e o que resta na maioria é monocultura de pinheiro e outras espécies, observa Benke. "Temos que ter o nosso inventário porque muitas coisas boas já foram construídas com essa diversidade de madeira, a ciência e a consciência que o povo tem aqui sobre esse manejo", acrescenta.

"Se a Universidade da Floresta está prevendo uma sustentabilidade dos recursos florestais, precisa ter uma visão do que o povo aprendeu na floresta. A experiência daqui pode ser um primeiro modelo universal", avalia Benke.

Segundo ele, temos uma grande diversidade de madeira, de plantas e experiência do povo da floresta – seringueiros, índios e agricultores.

Na concepção de Benke, "a Universidade da Floresta tem uma coisa estratégica científica grande que deve ter um olhar mais profundo sobre a realidade daqui".

Enquanto o projeto da Universidade da Floresta não sai do campo da discussão e permanece como um campus avançado da Ufac com cinco cursos em Cruzeiro do Sul, a escola Yorenka Ãtame procura por em prática a transmissão dos saberes da floresta dos índios para os extrativistas e ribeirinhos.

"A Escola é um desafio grande para o nosso povo para enfrentar até mesmo os conhecimentos acadêmicos. A gente aposta nessa experiência que pode ser uma estratégia para essa população da região do Juruá", acentua Benke.

Para ele, a Yorenka Ãtame pode ser um exemplo de como restaurar o meio ambiente e ter uma facilidade muito mais prática de ensinar os ribeirinhos.

De acordo com Benke, a escola veio com o fim de mostrar um novo modelo que a comunidade Ashaninka desenvolveu voltado à segurança e sustentabilidade alimentar.

A experiência, ele conta, "surgiu de uma necessidade por falta de organização dos representantes municipais. As coisas ficam muito entregues na mão do governo, prefeitura, dos políticos, e muito pouco nas mãos dos representantes do cooperativismo", constata.

A escola está prevendo receber até 80 pessoas de uma vez, 40 pessoas em cada curso. O primeiro passo que é a construção, já foi dado e a obra física foi terminada. Falta colocar água com um poço artesiano e luz, mas a Internet já está chegando, relata Benke.

Mesmo sem ter terminado a infra-estrutura, foi dado um curso em parceria com a Unicamp. Benke conta que já está sendo preparado o projeto para receber as pessoas na escola. "Precisamos de recursos para o primeiro curso", informa.

*Flamínio Araripe, Jornal da Ciência, de 08 de Junho de 2007.

4 de jun de 2007

Escola Saberes da Floresta Yorenka Ãtame

por Gal Rocha*

Com previsão para durar três anos, o Projeto Escola Yorenka Ãtame (Saber da Floresta), da Associação Ashaninka do Rio Amônia, pretende dar continuidade à preservação de seus conhecimentos tradicionais e fortalecer e ampliar sua luta para a proteção do meio ambiente e o desenvolvimento sustentável da região do Alto-Juruá, uma das regiões com maior riqueza em biodiversidade do planeta.

De julho de 2007 a julho de 2010, o município de Marechal Thaumaturgo sediará o centro de formação, educação e difusão de práticas de manejo sustentável dos recursos naturais da região do Alto-Juruá.

Um dos principais povos indígenas da bacia amazônica, os Ashaninka têm uma população de mais de 60 mil e que ocupa um território que se estende dos Andes centrais do Peru à bacia do Alto-Juruá.

Nômades tempos atrás, hoje os Ashaninka possuem uma área demarcada e isso fez com que eles começassem a desenvolver técnicas sustentáveis como forma de preservar a região. Entre outras coisas, os Ashaninka desenvolvem um trabalho de repovoamento de rios e matas e reflorestamento de árvores.

Segunto Luiz Paulo Montenegro, um dos mantenedores do projeto, hoje os Ashaninka têm uma noção exata da sua cultura e querem mantê-la ao mesmo tempo em que utilizam o que apreenderam em contato com o não índio.

- Eles têm a percepção de que não adianta manter a reserva intacta se os arredores estiverem degradados. O Rio Amônia nasce no Peru e é um rio essencial para a sobrevivência de qualquer comunidade na Amazônia. A idéia da escola é fundir o conhecimento que eles têm da floresta, das plantas, das sementes, das ervas, com o conhecimento ambiental, de ecologia, biologia, zoologia, e com isso ministrar cursos de formação técnica, de manejo sustentável, - explica Luiz Paulo.

Os cursos, que terão duração aproximada de 20 a 40 dias, ensinarão a fazer coleta e tratamento de sementes, criar e preservar peixes e quelônios, manusear os ovos das tartarugas e protegê-los de predadores, fazer açudes, desenvolver a apicultura, entre outras coisas.

Com uma área de 770 mil hectares e uma população de 8.292 habitantes, o município de Marechal Thaumaturgo é o único no Brasil a ter aproximadamente 95% de seu território constituído por terras protegidas e amparadas por lei. A escola Yorenka Ãtame pretende apoiar o território a conservar todas essas terras protegidas e a riqueza de sua biodiversidade.

*Gal Rocha, 04/06/2007
Direto da Rede Povos da Floresta

1 de jun de 2007

Yorenka Ãtame, Escola Saberes da Floresta








A Apiwtxa, Associação do Povo Ashaninka do Rio Amônia, convida para Inauguração da Yorenka Ãtame - Escola Saberes da Floresta

Programação

Sábado, 07 de julho
07:30 h, Café da manhã
08:00 h, Mesa de abertura com exposição do objetivo do evento – lideranças Ashaninka
08:30 h, Roda de conversa sobre o que é Yorenka Ãtame – Escola Saberes da Floresta e como devemos ser parceiros
10:00 h, Intervalo para o lanche
10:30 h, Inauguração com a presença de convidados, plantação de mudas e visita às instalações
da escola Yorenka Ãtame - Escola Saberes da Floresta
12:00 h, Almoço com Piarentsi
14:00 h, Apresentação do Projeto Yorenka Ãtame - Escola Saberes da Floresta e considerações
15:30 h, Vídeo e palestras
18:30 h, Jantar
20:00 h, Concentração espiritual - Kamarãpe;

Domingo, 08 de julho
09:00 h, Visita à aldeia Apiwtxa
14:00 h, Festa de Piarentsi;

Local
Município de Marechal Thaumaturgo

Realização
Apiwtxa - Associação Ashaninka do Rio Amônia

Apoio
Rede de Amigos da Escola
Governo do Estado do Acre
Prefeitura de Marechal Thaumaturgo